domingo, 29 de março de 2020

Afinal, quem pode morrer para salvar a economia?

POR  ANDRÉ CARVALHAL - OPINIÃO
                    FOTO: ANDREAS SOLARO/AFP
É hora da cooperação global entre países – compartilhando aprendizados, materiais, medicamentos, médicos, e apoio financeiro
Enquanto o isolamento social se mantém como a principal forma de conter a proliferação da Covid-19 – o que vem acarretando no fechamento de fábricas, comércios e empresas – no mundo todo aumenta a polarização entre aqueles preocupados em salvar a economia e os preocupados com a saúde das pessoas e do planeta.
Enquanto ambientalistas comemoram a queda nas taxas de poluição (para você ter uma ideia, o volume de carros circulando em rodovias no Brasil caiu 50%, imagine o impacto disso), o ar puro na China (após o fechamento das fábricas que entraram em quarentena), canais com água cristalina em Veneza (com a redução de barqueiros e turistas) há aqueles reforçando a noção de que estamos pagando essas melhorias com vítimas (da doença).
Os impactos já são sentidos na economia. E empresários se dividem entre o desejo de liberar os funcionários para garantir a saúde de todos e a angústia de ver seus negócios entrando em coma sem previsão de retorno, e com isso não ter dinheiro para pagar seus funcionários.
Para alguns, a taxa de letalidade – estimada em 1% mais ou menos (média no mundo sem levar em consideração as particularidades de cada país) – é baixa diante do caos econômico. Por conta das paralisações, certamente o número de desempregados e pessoas que terão a vida financeira desestruturada será infinitamente maior do que os irão se contagiar ou mesmo morrer.
Estudos levantaram a previsão de 26 milhões de infectados no mundo até o final de abril. As mortes, como disse anteriormente, variam de acordo com a realidade de cada país – que tem a ver com renda e idade média da população, basicamente (vou falar mais a diante). E por aí vemos: de um lado, pessoas preocupadas em salvar vidas, clamando para que todos fiquem em casa. Por outro lado, há aqueles preocupados em salvar a economia.
A notícia da morte de um funcionário do FMI de 26 anos, que era contra a quarentena, pode ter balançado um pouco aqueles que estavam com opiniões formadas. Rehman Shukr atuava como especialista em sistemas financeiros e em seu último post no Facebook defendeu que era uma má ideia sobrepor o que chamou de “aspecto humano” da doença aos impactos na economia.
O que há de mais importância neste momento? A resposta não é simples. Ao mesmo tempo em que precisamos agir de forma rápida e eficaz, o alerta do vírus é que não podemos fazer escolhas com a cabeça de antes. As decisões que tomarmos hoje irão determinar o futuro da humanidade (inclusive se haverá futuro).
Bem, primeiro, acho importante lembrar que estamos falando de vidas – independentemente de quantas e de quem são. Ainda é preciso lembrar que o sistema capitalista-selvagem-patriarcal no qual estamos inseridos faz vítimas todos os dias – há muito tempo. As principais causas são a desigualdade social, o desequilíbrio na distribuição de renda, mas também o preconceito, a marginalização, a falta de cuidado com aqueles tidos como “minorias”.
Sem contar com os que já sofrem com alterações climáticas devido ao colapso do ecossistema que a ação humana vem promovendo. O que o vírus fez foi confirmar a fragilidade do sistema e das nossas relações e dividir aqueles com aspirações individuais dos que tem aspirações coletivas. Mas será que a luta pela economia é diferente da luta pelas pessoas?
A nova noção que começa a se estabelecer é de que é impossível descolar uma coisa da outra. Antes aqueles que estavam em situações mais vulneráveis se prejudicavam sozinhos. Viviam infelizes, com restrições, morriam, mas não mudavam em nada a vida daqueles com privilégios e papeis sociais elevados (saúde, dinheiro, emprego e estabilidade).
O Brasil tem seus riscos próprios. A nossa população pode não ter tantos idosos quanto a Europa, mas temos uma parcela grande de pessoas vivendo em condições de vulnerabilidade nas favelas, periferias, tribos indígenas… Não é à toa que as primeiras vítimas letais na Europa foram o presidente do Santander, em Portugal, e o ex-presidente do Real Madrid, em Madrid, enquanto no Rio de Janeiro foi uma empregada doméstica que pegou de sua patroa. Isso faz do Brasil um caso particular, que pode mudar as estatísticas do mundo.
É preciso lidar com o fato de que os menos favorecidos não tem condições de fazer compras para estocar, guardar. Em muitas comunidades eles sequer tem água para lavar a mão. É impossível ficar a 1 metro de distância dos outros em pequenos cômodos superlotados. Falar em álcool gel é quase piada. As comunidades são como barris de pólvora para o vírus e podem colocar por água abaixo todos os esforços de contenção, caso ele se espalhe por lá. Isso é um problema econômico ou social?
O coronavírus é um alerta de que não dá mais para viver sem uma noção sistêmica nas relações. Enquanto o nosso sistema continuar oprimindo e excluindo, enquanto o nosso sistema econômico não for a favor das pessoas, das empresas e do planeta, continuaremos tendo vítimas. Por isso, voltar ao que era não tem sentido, não vai funcionar. A escolha de “salvar a economia” não pode mais ter a ver com passar por cima das pessoas. Isso é o que tem sido feito até hoje.
Suspender a quarentena não é garantia de salvar a economia. Quem acredita que as pessoas vão voltar para rua e sair gastando como se nada tivesse acontecido? Muitas vão continuar com medo. E outras estão mais conscientes sobre o que há por trás da pandemia. E o que acontece se pais, mães, avôs e avós de família morrerem? Ali na frente tudo isso pode contribuir com uma nova crise se a raiz de tudo não mudar.
A quarentena é uma forma de socorro às pessoas. Da mesma forma como perderemos vidas, durante o processo (por se tratar de uma doença), qualquer alternativa terá um custo econômico. E cadê o socorro à economia? Quem está pensando em como criar uma nova lógica de funcionamento? Em distribuir melhor renda?
O momento nos oferece a oportunidade de se valer do sentimento de que estamos todos no mesmo barco para colocar em prática de uma vez por todas, a nossa capacidade de colaborar além fronteiras, de sistemas de crenças ou blocos políticos.
É hora da cooperação global entre países – compartilhando aprendizados, materiais, medicamentos, médicos, e apoio financeiro. Cooperação entre classes, compartilhando saberes, fazeres, renda, comida… É hora de criarmos uma economia regenerativa e colaborativa. Mas antes é preciso aceitar que o sistema capitalista vigente já não funcionava para todos. Esta discussão é a maior prova disso.
Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.
FONTE: CARTAcAPITAL
Edição: Mário Pires Santana

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