segunda-feira, 9 de março de 2020

As várias formas de ataque à vida da mulher brasileira

POR *MARÍLIA ARRAES - OPINIÃO
Em palavras e ações, o governo Bolsonaro reforça o machismo, o sexismo e a misoginia
Em 2019, o governo federal não repassou nenhum centavo à Casa da Mulher Brasileira, programa concebido para ser a principal ação de combate à violência contra as mulheres no País. Divulgada no último mês de fevereiro, a informação escancarou ainda mais a ausência de políticas públicas do atual governo. Políticas públicas que também incluam geração de emprego, estímulo ao empreendedorismo e atenção à saúde e à educação, dentre várias outras áreas. Para tentar “correr atrás do prejuízo”, após a repercussão negativa das informações, o governo divulgou que em 2020 vai investir 42 milhões de reais na implantação de novas unidades da Casa da Mulher Brasileira. Será?
Poderia preencher aqui a página com vários outros dados que demonstram a insensibilidade de quem deveria ter a responsabilidade de formular e implantar iniciativas que deem mais dignidade, igualdade, proteção e respeito à vida das mulheres. Mais do que dados, a dura narrativa cotidiana de nós mulheres é o que se impõe, no entanto, como maior prova de que somos ainda muito maltratadas. Dentro de casa e da porta para fora. Na vida privada e no espaço público.
Quando contrariado por uma mulher, o presidente ataca com machismo,
sexismo e misoginia. A última investida deu-se contra a jornalista Patrícia Campos Mello, com a declaração absurda de que ela teria se insinuado sexualmente para obter informações de uma fonte. Campos Mello também virou alvo de milícias digitais, o que a colocou na terceira posição em uma lista que relaciona os 10 casos mais graves de ataques realizados a jornalistas no mundo, levantamento realizado pela organização internacional One Free Press Coalition.
E o que dizer de um ministro que utiliza o cargo e o poder para agredir as mulheres? Paulo Guedes, que deveria usar a economia para combater as desigualdades no País, disse sem o menor constrangimento, em Brasília, que a alta do dólar é melhor porque antes até “empregada doméstica estava indo para a Disney, uma festa danada”.
Danado, e de indignar, é ouvir de um ministro uma demonstração tão despudorada de preconceito social. E mais: de violência contra trabalhadoras, a quem o País oferece tantas dificuldades, e que saem todos os dias de casa para garantir, além da própria sobrevivência, a de toda família, dos filhos, pais e companheiros desempregados. O País sabe – menos o ministro da Economia – que elas são a base econômica da família, a força de sustentação, o amor e a segurança.
A violência institucional contra as mulheres acontece sobretudo quando se nega o acesso ao mercado de trabalho, à saúde e também a creches e escolas onde seus filhos sejam tratados com dignidade. No Recife, esta é uma dificuldade cotidiana. Em conversas com jovens do Campo Grande, bairro da Zona Norte da capital pernambucana, escutei relatos dramáticos de mães que precisam todos os dias deixar os filhos na casa de amigos ou parentes para poderem trabalhar.
O bairro, com mais de 32 mil moradores, não possui uma única creche. Vagas, quando surgem, só em outras localidades. Essas mães precisam acordar de madrugada para cuidar da casa, do filho, de levá-lo para uma creche fora do seu bairro e, só então, pegar o transporte para o trabalho.
O bairro também não possui posto de saúde. O que existia está fechado há anos, e para tentar conseguir atendimento mulheres, homens e crianças do Campo Grande precisam ir a unidades de outros bairros, lotadas pela demanda dos próprios moradores. Isto sem falar na ausência de atendimento das equipes de saúde da família, um instrumento de atenção básica, preventivo, que pode resolver até 80% dos problemas da população. No Recife, de 2012 até hoje, a prefeitura colocou apenas 21 equipes da saúde da família no sistema. Em sete anos, o número saiu de 255 para 276, o que claramente deixa sem atendimento grande parte da população recifense, formada hoje por mais de 1,6 milhão de habitantes.
É curioso notar como tudo o que tratamos aqui se conecta e afeta a vida da mulher brasileira, da falta de investimento em políticas que combatam a violência e promovam a igualdade de gênero até as declarações machistas e preconceituosas do presidente e de seu ministro da Economia e a ausência de cuidado da Prefeitura do Recife com as mães do bairro do Campo Grande. 
Mas vamos continuar lutando contra tudo isso. É da nossa natureza, está na nossa alma enfrentar e superar dificuldades. Em casa, no trabalho e nos espaços públicos, nós mulheres vamos continuar a mostrar que um mundo melhor brota do respeito às nossas vidas e à nossa liberdade. Estamos conquistando isto.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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