segunda-feira, 2 de março de 2020

Barrière

Por *Gustavo Rosal

Há momentos em que não leio e dificilmente uma força, autoridade ou vergonha me reanima. Por acaso isso acontece quando me vêm seguidas obras de estilo semelhante, mesmo que boas - eu vou já ficando para lá da esquina depois de um punhado de parágrafos que me parecem pilhas de tijolos na premente necessidade de suceder. Lá vem Balzac, com suas cortinas cor de ardósia, Maupassant traz as persianas, o Flaubert (que leio atualmente) as heras que se estendem pelas colunas da mansão - tudo posto para que o rapazinho pedante vá cercando a sempre adúltera da janela. Acometido por uma dessas crises, fechei o calhamaço, fui me ater às coisas próximas, um pouco indeciso. Observei a casa, os objetos sem lugar. Nada me valeu. Então, dispus-me a ouvir o rumorejar da avenida e do apartamento, mas não parecia haver som algum. Fechei os olhos e os abri e isso não significou nada. Voltei-me à capa da edição. É um "Educação Sentimental", como disse, do francês Gustave Flaubert. Não conheço a língua francesa; posso dizer que há uma barreira natural entre minha pessoa e o escrito do Flaubert. Portanto, achei ironicamente belo o futuro que os pais do tradutor da edição lhe oportunizaram destruir. Veja só! Ele se chama
João Barreira. Em admiração ao nome do tradutor lerei as 400 páginas desse pince-nez já!
21.02.20

*Gustavo Rosal é escritor, especialmente poeta, cronista e contista. Participou das coletâneas "Versania" e "Contos entre Gerações", ambas de repercussão na cidade de Parnaíba, para além de outras publicações em jornais culturais, revistas, sites, blogs, redes sociais e afins, a exemplo do jornal "O Piagüí", o blog da Academia Parnaibana de Letras, o espaço "Escrever sem Fronteiras", de iniciativa do Sesc, "Trema", "Gueto", "Vacatussa". É bacharelando em Direito pela UESPI. Nascido em Teresina, no ano de 1996.
Edição: Mário Pires Santana

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