domingo, 8 de março de 2020

Entrevista com um pescador de Itararé, São Vicente

Por *Gustavo Rosal

- Aconteceu essa manhã. O relógio de herança marcava 5h na cozinha e a mulher se agitava com o ferver do desjejum. Os ponteiros negros passaram como se fosse impróprio. Não era dia para pesca, no entanto fui à praia porque eu sabia que era preciso e porque eu não entendia essa necessidade. As luzes feias distinguiam-se por todos os lados, invadindo comércios, passarelas, pessoas e tudo me parecia escorrer pela tangente, escapar-se de maneira premeditada, feito um sonho que se conturbou. A cínica sensação de que corria enquanto caminhava para o meu lugar, a praia e o cheiro de baía. De início, me pareceu um gênero residual da zona mas algo confundia-se com o mar oscilante que provém uma noção de grandeza a tudo que não é o homem. Aquele corpo era um segredo que escapou das águas e que me foi dado conhecer ou eu ainda olho os ponteiros do relógio de minha mãe passarem e finjo, à salvo, cinzento como escama, alheio à Fabíola sonora, à mesa e minha mãe que esteve. O tempo é a morte que se reconhece e que não se reconhece. As pistas escasseavam de acordo com os ângulos, pois a parte de cima parecia a de baixo e depois a de baixo parecia a de cima, de forma que me era estúpido adivinhar. Aproximaram-se o Elias e o Maranhão, que me estudavam de longe. Depois, descobri o que era: "Peixe-morcego aparece em praia do litoral de Santos e vira atração", enquanto isso o relógio de minha mãe tornou a girar sem mistérios.
03.03.20.
Gustavo Rosal é escritor, especialmente poeta, cronista e contista. Participou das coletâneas "Versania" e "Contos entre Gerações", ambas de repercussão na cidade de Parnaíba, para além de outras publicações em jornais culturais, revistas, sites, blogs, redes sociais e afins, a exemplo do jornal "O Piagüí", o blog da Academia Parnaibana de Letras, o espaço "Escrever sem Fronteiras", de iniciativa do Sesc, "Trema", "Gueto", "Vacatussa". É bacharelando em Direito pela UESPI. Nascido em Teresina, no ano de 1996.
Edição: Mário Pires Santana

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