quarta-feira, 11 de março de 2020

Entrevista com uma castanhola de casa familiar

Por *Gustavo Rosal

- Aprendi a calma com o passar dos anos e a virtude de conhecer e de aguardar o tempo. Recentemente acercaram-se a mim alguns homens, trouxeram com eles materiais que amotinaram e que ergueram em uma construção. Agora, depois que se foram, é uma gente engraçada que me rodeia e que parece estar sempre ativa em locais que não vejo por dentro da casa. Eu os observo chegar e partir como observo outras coisas. Um senhor entre eles costuma levar sacos azuis para o outro lado, dar-me água, varrer, amontoar as minhas folhas no canteiro. Houve um tempo em que, pelas manhãs, ele tomava aos braços uma pequena criança e a levava às primeiras luzes do dia, ingenuamente amenizadas feito a própria infância, como se lhe desvendasse o futuro a partir daquele principiar. Ficavam os dois sob minha copa, os rostos erguidos quando lá no alto, acima de nós, planava o avião indiferente e ele o apontava à criança e depois apontava o pássaro que fugia, dizendo: olha o passarinho! e ouvindo aquele riso. Soube que o menino foi morar em outra cidade, em um pássaro de ferro. Não mais o vi e o senhor parece ter perdido o prazer que tinha nos pássaros. Eu mesmo até entristeço quando passa o avião que é feito uma lembrança. Entendi que somos parecidos.
01.03.20.
*Gustavo Rosal é escritor, especialmente poeta, cronista e contista. Participou das coletâneas "Versania" e "Contos entre Gerações", ambas de repercussão na cidade de Parnaíba, para além de outras publicações em jornais culturais, revistas, sites, blogs, redes sociais e afins, a exemplo do jornal "O Piagüí", o blog da Academia Parnaibana de Letras, o espaço "Escrever sem Fronteiras", de iniciativa do Sesc, "Trema", "Gueto", "Vacatussa". É bacharelando em Direito pela UESPI. Nascido em Teresina, no ano de 1996.
*Obs: a imagem que eventualmente acompanhar esse texto é mera reprodução, sem pretensões autorais e sem fins econômicos.
Edição: Mário Pires Santana

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