sábado, 14 de março de 2020

Ganhadeiras: feministas e amefricanas

POR DANIELA VALLE DA ROCHA MULLER
GABRIEL NASCIMENTO | RIOTUR
Homenageadas pela Viradouro, ganhadeiras lutam e lutaram ativamente para construção da amefricanidade

A Unidos do Viradouro, campeã do Carnaval carioca, colocou no centro “do maior show da Terra” a história das Ganhadeiras de Itapuã. Muito mais do que contar a história do grupo musical de mulheres baianas, a escola de samba de Niterói deu voz para milhares de anônimas pouco lembradas na nossa história: as ganhadeiras, mulheres que “viviam sobre si”, ou seja, trabalhavam por conta própria e que, hoje em dia, talvez fossem chamadas de “empreendedoras”.

O “ganho” foi uma modalidade de trabalho praticada nos centros urbanos da América Portuguesa a partir do século XVII e que prosseguiu no Brasil imperial. Libertos e escravizados trabalhavam por demanda e realizavam serviços variados, comércio em geral até a prostituição. Assim como os domésticos, esses trabalhadores de rua eram, em sua maioria, nascidos na África e seus descentes. Muitos desses descentes nasceram da miscigenação entre africanos e indígenas, então denominados “negros da terra”.
Normalmente os homens se ocupavam do carrego das “cadeiras de arruar” e de
objetos de diversos pesos e tamanhos, enquanto “as mulheres deambulavam pelo espaço urbano a vender toda sorte de mercadoria, entre outros afazeres que as obrigavam a sair às ruas […] tinham liberdade de movimento para dar conta das tarefas, prover lucro aos senhores e fazer a economia andar”[1].Com isso, as ganhadeiras tiveram um destacado papel na Revolta dos Malês, pois circulavam por Salvador e entregavam diversas mensagens clandestinas, sem despertar suspeita.
JEAN-BAPTISTE DEBRET – VENDEDORES DE PASTEL MANOÉ, PUDIM QUENTE E SONHO, 1826
Quando praticado por pessoas escravizadas (a maioria até meados do século XIX), o ganho era feito mediante um acordo com seus senhores, que recebiam certa quantia semanal previamente ajustada e o que sobrasse ficava para os trabalhadores. Especialmente as ganhadeiras conseguiram, com isso, juntar o suficiente para comprar a própria alforria e de suas filhas, filhos, sobrinhas e sobrinhos, entre outros parentes. Muitas de suas descentes e delas próprias são as autoras dos testamentos sobre os quais já falamos nessa coluna.
Lélia Gonzalez[2] chama a atenção para o papel das “mães pretas” e “tias” nas comunidades negras, muitas delas ganhadeiras. A maternidade vista como uma potência da mulher negra, o ponto de comunhão através do qual conseguiam construir e preservar um universo simbólico, capaz de elaborar significados culturais que não permitiram uma coisificação subjetiva dessas mulheres e da comunidade à qual pertenciam.
Elas resistiram mesmo submetidas a toda sorte de violência física e simbólica, a uma constante desqualificação de tudo que fosse relacionado à “essa gente”: aparência, hábitos, modo de falar, tom de voz, cheiros, danças, crenças e tudo mais relacionado à identidade das ganhadeiras. A comissão de frente da Viradouro nos revela que por dentro da aparência rude e maltratada de ganhadeiras havia altivas Oxuns, divinas, lindas, guerreiras e determinadas, verdadeiras divindades escondidas por baixo dos farrapos, da exploração e do cansaço.
Foi compartilhando essas experiências de violência que essas mulheres, africanas e ameríndias, construíram táticas de resistência e sobrevivência. Assim, “foi no interior das novas sociedades que se formaram no Novo Mundo […] que a amefricanidade floresceu e se estruturou”[3]. Ao lado da violência, havia também solidariedade e estratégias de sobrevivência. É por isso que essas mulheres podem ser consideradas as “primeiras feministas do Brasil”.
Como percebe Lélia Gonzalez, o feminismo construído a partir da América Latina é multirracial e pluricultural; seu desenvolvimento está relacionado, em grande parte, à participação popular onde “vamos encontrar maior participação de amefricanas e ameríndias que, preocupadas com problema da sobrevivência familiar, buscam organizar-se coletivamente; por outro lado, sua presença principalmente no mercado informal de trabalho as remete a novas reivindicações”[4].
Como disse Patrícia Maeda há alguns dias aqui na coluna “a amefricanidade é uma forma de resistência física, psíquica e cultural”, um modo de sobreviver à dolorosa experiência comum a milhões de amefricanas e ameríndias subordinadas a uma latinidade que legitima sua inferiorização.
Acredito que nossa ameficanidade está presente no Carnaval, que se constituiu a partir da ressignificação do “entrudo”, uma festa medieval européia. Desde o período colonial essa festividade, na sua forma popular, era praticada nas ruas principalmente por escravizados, além de livres e libertos pobres. Nas ruas estavam as ganhadeiras, que durante o entrudo vendiam seus produtos e também ficavam expostas às brincadeiras violentas e grosseiras, cuja principal característica era o lançamento mútuo de todo tipo de líquidos, inclusive sêmen e urina, ou quaisquer pós que estivessem disponíveis. Caso os brancos também brincassem, os negros que estavam participando não podiam “melá-los”, pois poderiam ser presos.
JEAN-BAPTISTE DEBRET – DIA DE ENTRUDO, 1823
Com o declínio do Entrudo, a partir de meados do século XIX, o “mela-mela” foi aos poucos substituído por manifestações culturais que deram origem ao samba, aos cortejos e ao carnaval como conhecemos hoje. Nesse processo se afirmou toda uma cultura mantida com muita perseverança, especialmente pelas “mães” e “tias” do samba. A mais famosa delas, Tia Ciata, era quituteira profissional e responsável por manter um “quintal”, local que abrigava os sambistas e de onde surgiram composições como “Pelo Telefone”.
A partir de Ciata e das outras tias, com forte influencia dos negros baianos que vieram para o Rio, o samba carioca floresceu em regime matriarcado, em torno de mulheres de forte personalidade. […] A morte de Ciata e o declínio da Praça Onze transferiram a fama dos quintais para outros lugares, sobretudo a região sob influencia de Madureira e Oswaldo Cruz, já com a Portela criada […] É curioso notar que, além do traço comum da ligação com o samba o fato de todas serem excelentes cozinheiras”[5]
O carnaval é, desse modo, a expressão da luta dessas mulheres que, enquanto produziam bens e serviços, também produziam resistência cultural. Resultou da transformação de uma tradição grosseira em uma festa que simboliza toda uma nação. Uma grande festa onde “índios e padres e bichas, negros e mulheres; e adolescentes fazem o carnaval”.
Mesmo que seja a contragosto, nós existimos e celebramos a nossa trajetória. Aí de quem ousar esconder a nossa história. Seguimos criando, agindo e desviando dos estereótipos que poucos nos ajudam a entender as relações de raça e gênero desse lado do atlântico. E, de alma lavada, seguimos transgredindo o modo de nos ver e sermos vistas.
O carnaval e suas manifestações carregam consigo um magnetismo que não se explica apenas pelo luxo dos desfiles e o apelo midiático. Acredito que existe algo mais, algo “que os olhos não conseguem perceber, que as mãos não ousam tocar, e os pés recusam pisar” e que está profundamente relacionado com a luta das amefricanas na preservação dos seus referenciais simbólicos. A Viradouro representou tudo isso, trazendo para o palco principal desse grande evento a história das mulheres que lutam e lutaram ativamente para que ele pudesse, um dia, existir.
[1] REIS, João José. Ganhadores: a greve negra de 1857 na Bahia. São Paulo: Cia. das Letras, 2019, p. 15; 41.
[2] Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzáles em primeira pessoa. Diáspora Africana: Ed. Filhos da África, 2018.
[3] Lélia González, ob. cit. p. 337.
[4] ob. cit. p. 315.
[5] MEDEIROS, Alexandre. Batuque na Cozinha, As Receitas e as Histórias das Tias da Portela. Casa da Palavra: Senac Rio, Rio de Janeiro, 2004.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários são de responsabilidade de seus autores, e não refletem, de maneira nenhuma, a opinião do redator deste portal.