terça-feira, 3 de março de 2020

Interdição

Por *Gustavo Rosal

- Mas você é tão calmo, doutor... será que sabe brigar? É você mesmo que vai me defender? - e olhou para o marido (que não parecia cúmplice da suspeita), como se nele houvesse o eterno cúmplice.
Neste instante, por dentro de mim, o homenzinho barrigudo e calvo de tanto engolir afetação solenemente iniciava:
- Meus colegas advogados, bacharelandos, promotores, oficiais, corregedores, operadores todos que muito ou nada lutam pelas causas e pessoas, seremos bárbaros de grife? O que nos tornara sinônimos de grosseria e - perdoai, meu Deus - de vilezas? Requisito perícia a examinar-nos, litisconsortes animosos, haja vista a interdição que se requer. O cidadão crê na desordem para o alcance da ordem e é o oposto exato que deveríamos representar. A moderação do... - e segue o enxerto, com seu pálido carisma, _ad infinitum_.
Foi-se uma parcela de instante. Com o rosto amarelo volto à consultoria. O homenzinho entalado, impossível de escapar. Faço uma cena, uma graça para convencer - prerrogativa à dotação jurídica, cada vez mais me parece. - O senhor só tem cara de bonzinho, hein? - repetiu, satisfeita, o olhar ao marido (muito pouco cúmplice), com a mesma dose de cumplicidade de antes.
Quando o casal se foi, restou uma aspereza em minha garganta. Não mais saiu. Até que me entristeci finalmente.
18.02.20
*Gustavo Rosal é escritor, especialmente poeta, cronista e contista. Participou das coletâneas "Versania" e "Contos entre Gerações", ambas de repercussão na cidade de Parnaíba, para além de outras publicações em jornais culturais, revistas, sites, blogs, redes sociais e afins, a exemplo do jornal "O Piagüí", o blog da Academia Parnaibana de Letras, o espaço "Escrever sem Fronteiras", de iniciativa do Sesc, "Trema", "Gueto", "Vacatussa". É bacharelando em Direito pela UESPI. Nascido em Teresina, no ano de 1996.
Edição: Mário Pires Santana

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