segunda-feira, 16 de março de 2020

O bronze que ofuscou o ouro

A magia de uma olimpíada é algo que transborda os sentimentos de emoções dos povos envolvidos nas competições, em busca do ouro olímpico. 
Por *Mário Pires Santana
     Foto/reprodução/web
A magia de uma olimpíada é algo que transborda os sentimentos de emoções dos povos envolvidos nas competições, em busca do ouro olímpico. A delegação brasileira – na última olimpíada da Grécia – era composta de 247 atletas. Imagino que o nosso desempenho foi medíocre, em termos de resultados gerais. Dez medalhas e somente quatro de ouro para uma delegação tão grande e dispendiosa chega a ser um pífio resultado. 
A mídia brasileira, sabedora das dificuldades para se chegar ao ouro olímpico --- principalmente para uma nação subdesenvolvida como a nossa, em que os esportes amadores são sempre relegados a um segundo plano --- incutiu irresponsavelmente na mente do povo que neste ano ganharíamos muito mais medalhas que nos anos anteriores. 
Pura embromação! Nas olimpíadas de Sydney, na Austrália, há quatro anos, conquistamos 12 medalhas, mas em compensação não ganhamos nenhuma de ouro. Mesmo assim, esta ultima participação foi considerada como
a melhor em todos os tempos. Todavia, os números são irrefutáveis e não mentem jamais. Ficou provado que não se constrói uma potência olímpica sem um investimento maciço nas nossas mais variadas modalidades de esportes amadores. 
O exemplo deixado pelo vôlei masculino é a prova inconteste de que um investimento prolongado e sustentável, com a participação do patrocínio por parte da iniciativa privada e o apoio inconteste do setor público, é a fórmula ideal para chegar com orgulho ao ouro olímpico. O mesmo exemplo vem sendo dado pelo vôlei de praia, pelos esportes náuticos, como a vela; e pelo hipismo. 
A ginástica evoluiu bastante em termos individuais, mas em termos de equipe ainda não chegamos lá. E o atletismo? Propositalmente deixamos para comentar por último. Essa modalidade é a mais nobre de todas nas competições; tanto assim que a maratona tem a missão de encerrar a olimpíada com todas as honras. 
Foi na maratona que tivemos a oportunidade de observar a garra, determinação, humildade, o desprendimento e o mais belo exemplo da personificação do espírito olímpico --- sonho maior do francês Jean Pierre, o barão de Coubertin --, idealizador dos jogos olímpicos da era moderna, em 1896, na Grécia. Vimos agora a história se repetir com um herói brasileiro, outrora bóia fria no interior do Paraná, Vanderlei Cordeiro de Lima. 
Praticamente no fim de sua participação na prova da maratona, que vinha ganhando com folga, e apenas a cinco quilômetros de seu término, no monumental Estádio Panatinaikos, Vanderlei foi surpreendido por um fanático religioso que, idiotamente e com a complacência dos seguranças da prova, o tirou da rota por alguns segundos. Com isto, permitiu-se que dois concorrentes o ultrapassassem e lhe retirassem a medalha de ouro. 
A revolta foi geral, e a única pessoa que não perdeu o equilíbrio foi justamente a maior prejudicada na história, o nosso Vanderlei, que ficou muito satisfeito com a medalha de bronze. O italiano que, por um lampejo do destino, abocanhou o ouro, parecia não acreditar no que estava vivendo. Talvez nos refolhos do seu íntimo acreditasse que o ouro verdadeiramente pertenceria a Vanderlei. 
Não tenho nenhuma dúvida de que a medalha de bronze de Vanderlei brilhou muito mais que a de ouro do italiano. Tanto que o Comitê Olímpico Internacional resolveu agraciar Vanderlei com a medalha de honra ao mérito “Barão de Coubertin”. 
Somente um atleta, um velejador que nos jogos de Seul, em 1988, abandonou a competição para pular no mar e salvar uma pessoa que se afogava, havia sido agraciado com tão significativa honraria, em toda a história das olimpíadas. 
Isto é tão importante que, mesmo daqui a 100 anos, a medalha de bronze de Vanderlei será mais lembrada e reverenciada do que a medalha de ouro do italiano, porque ela o fez transpor o umbral que transforma os heróis em mitos!
Do Livro, "De Parnaíba a Bagdá" 
01/09/2004
Edição: Mário Pires santana

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