quarta-feira, 1 de abril de 2020

Carolina e seu destino

Por *Mário Pires Santana

Carolina era uma bela mulher; acabara de fazer dezenove anos, tinha uma altura mediana, os cabelos pretos retintos, longos, bem tratados e lisos; sua tez morena, mais parecia um sapoti. Morava com seus pais no sopé de uma serra no Nordeste. Era uma moça morigerada e que ajudava os pais na labuta com a pequena, mas produtiva propriedade rural. Seus pais tinham cinco filhos, contudo, somente ela de mulher, tornando-se uma garota temporã ao nascer cinco anos depois de seu quarto irmão. Os dois filhos mais velhos tinham ido embora numa daquelas famosas levas de trabalhadores nordestinos para os garimpos do Pará, quando Carolina ainda era uma criança e nunca mais deram notícias.
O rancho ficava um pouco afastado da cidade, mas sempre que possível iam lá fazer compras e ver gente diferente. Carolina sempre teve vontade de ir às festinhas onde, quiçá, teria oportunidade de conhecer algum rapaz das redondezas, mas seus pais, muito rigorosos, sempre colocavam dificuldades para permitir tal aventura. Diziam eles que os rapazes da cidade só queriam bolinar as meninas do interior.
Eles chegavam a dizer que se ela tivesse que namorar alguém teria que ser o
filho de algum rancheiro vizinho. E isso não era coisa fácil, pois Carolina, além de não simpatizar com nenhum dos seus vizinhos, tinha ideias mais ambiciosas sobre esse assunto. 
O tempo foi passando e Carolina, sempre tão envolvida com os problemas da família e da propriedade, não percebeu a sua efemeridade. Ao completar 21 anos, já cansada daquela vidinha monótona e sem futuro, falou para seus pais que iria embora para São Paulo, onde procuraria sua tia Raimunda.
Esta era conhecida na família como Mundoca, irmã de sua mãe, que há muito morava por lá. A princípio, os velhos acharam uma ideia absurda, entretanto, a garota estava mesmo decidida. Vendeu duas vaquinhas, algumas criações e, numa manhã cinzenta de inverno, com o coração trespassado de saudades, todavia decidida, partiu para a capital, onde pegaria o ônibus para a metrópole paulistana.
Depois da longa viagem teve dificuldades para encontrar a casa da tia em Santo André. Entretanto, ao encontrá-la, a princípio foi tudo muito bom, pois a tia ficou muito alegre e sempre perguntando por todos. Carolina, como vão seus irmãos? E o Francisco e o Antônio, já deram alguma notícia por onde andam? Qual nada tia, ainda hoje papai e mamãe choram pensando haver acontecido alguma coisa de ruim com eles.
A senhora acredita tia, que nem me lembro mais deles, pois quando saíram de casa eu ainda não tomava ciência do mundo. Mas aqueles dois sempre foram muito diferentes dos outros; muito rebeldes e sempre deram muito trabalho aos seus pais.
Carolina aos poucos ficou sabendo que as coisas por lá não eram tão fáceis como imaginava. Ganhar dinheiro, isto ganhava, mas tinha que dar muito duro. Arranjou emprego em uma fábrica e à noite estudava muito, mesmo porque, a garota era humilde, mas bastante ambiciosa.
Aos poucos foi se acostumando com as idas e vindas de uma grande cidade e entre uma e outra paquera arranjou o tão sonhado namorado. Mesmo com suas naturais defesas de uma moça do interior, terminou caindo na lábia de um amigo de sua colega da fábrica, bem mais velho.
Ele sempre solícito, apresentou-se como Carlos Alberto. Como num passe de mágica, Carolina ficou encantada com os galanteios, o carisma e a experiência de Carlos que, mesmo já sendo um “enxuto coroa” era possuidor de um bom porte atlético e considerado muito bonito. Depois de muitos passeios, Carolina já estava perdidamente apaixonada pelo namorado.
A princípio, com a sua inexperiência, não notou que o namorado era na verdade um grande conquistador e que vivia mudando de bairro constantemente à procura de “presas fáceis”. Era o tipo do boa-vida, vivia o momento intensamente, não se interessando por pequenos detalhes. Dizia que a vida em sendo curta teria que ser bem vivida, mesmo porque, só existe uma!
Certo dia, conversando com sua amiga, Carolina comentou que desconfiava muito das intenções do namorado, já que o mesmo, na realidade só pensava “naquilo”. Um dia, dona Raimunda perguntou a Carolina quem era esse seu namorado e que queria conhecê-lo pessoalmente. De início Carlos relutou, mas após a insistência da moça concordou em conhecer a tal tia.
Ao chegarem à casa, ficaram aguardando por dona Raimunda, que havia saído para uma padaria próxima. Quando a tia foi chegando, Carolina, muito alegre correu para recebê-la na varanda. Pronto minha boa tia, este é o Carlos que a senhora queria tanto conhecer! Dona Raimunda olhou fixamente nos olhos do moço e, num rompante de horror deu um sonoro grito: “Meu Deus! Isto não pode ser verdade! Que desgraça! Este é o Francisco! Seu irmão...”
*Do livro "De Parnaíba a Bagdá"
Edição: Do Autor

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