domingo, 3 de maio de 2020

Brasil pode ser próximo foco mundial de coronavírus, diz imprensa internacional

Veículos chamam atenção para sistema de saúde precário, baixas taxas de isolamento e números subestimados no País
FOTO: NELSON ALMEIDA/AFP
Com um sistema de saúde precário, medidas de isolamento social pouco seguidas e números de contágios e mortes subestimados pelo governo federal, o Brasil pode se tornar rapidamente o novo foco mundial da Covid-19, ressalta a imprensa internacional neste sábado 2.
Reportagem da agência AFP, publicada em veículos franceses e distribuída para todo o mundo, indica que “o Brasil parece condenado a se tornar o próximo epicentro da crise planetária do coronavírus”, ao registrar “uma velocidade galopante” na propagação de casos.
“A questão não é saber se o Brasil será um dia o principal foco de contaminações no mundo: já é esse o caso”, explicou à agência Domingos Alves, do Laboratório de Informações sobre a Saúde da USP (Universidade de São Paulo). 
O coletivo de pesquisadores Covid-19 Brasil, do qual Alves faz parte, estima que o número real de novos casos registrados no Brasil na quinta-feira (30) era 16 vezes superior ao divulgado pelo Ministério da Saúde – 85.646 conforme os dados oficiais, contra 1,3 milhão projetados pelos cientistas.
“A título de comparação, os Estados Unidos, que hoje contam com o maior número de pessoas infectadas, acabam de superar oficialmente o
patamar de 1 milhão”, ressalta o texto da AFP. A matéria lembra que, segundo o Imperial College de Londres, o Brasil tem o índice de contaminação mais elevado do mundo, de 2,8. 
Atualmente, o país é o segundo do mundo com o maior número de novos casos (6.209 na sexta-feira, 1˚ de maio), atrás apenas dos Estados Unidos.
“A impossível contagem de mortos”
O jornal Le Monde também dá destaque para “a impossível contagem dos mortos por Covid-19 no Brasil”. A reportagem exibe uma equação incompatível entre os dados oficiais de vítimas e o aumento do número de enterros em diversas municípios. 
Cidades como Fortaleza e São Paulo estão sendo obrigadas a abrir covas nos cemitérios para sepultar mortos que, ao que tudo indica, faleceram em decorrência da doença.
Especialistas reunidos no Observatório Covid-19 BR sublinharam ao Monde o número recorde de casos de Síndrome Respiratório Aguda Severa (Sras) registrados nos hospitais do país – e que podem esconder, na realidade, casos não notificados de coronavírus. 
Em meados de abril, “o Brasil tinha contabilizado oficialmente 3.364 mortes diretamente ligadas à Covid-19 em 2020, mas também 5.283 mortes por Sras ‘não-especificadas’ ou ‘em curso de investigação’”, explica o jornal francês. 
A AFP afirma que o número de casos de Sras estaria 1.200% acima do registrado no mesmo período do ano passado.
Números atrasados e presidente negando a gravidade da pandemia
Além disso, pontua Le Monde, os laboratórios brasileiros estão sobrecarregados com testes para identificar a doença. “Às vezes, é preciso esperar de 15 a 20 dias para autentificar uma morte”, o que significa que os dados divulgados cotidianamente pelo governo são “uma fotografia não do instante presente, mas de alguns dias ou até semanas atrás”, frisou o professor Paulo Inácio Prado, também da USP.
Neste contexto, observa Le Monde, “não dá para contar com o presidente Jair Bolsonaro, que continua a negar a gravidade da pandemia”. O jornal lembra que, há poucos dias, o líder brasileiro disse que “não é coveiro” e as mortes fazem parte da vida.
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Fonte: CartaCapital
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Edição: Mário Pires Santana

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