sexta-feira, 19 de junho de 2020

A boneca de pano roubada

Por *Pádua Marques

Catarina não era de esperar em casa. Veio e ficou rente ao muro da casa de seu Zé Mendonça, olhando pra o portão por onde deveria sair dentro de pouco, Tião Marruás, ajudante de oficina na Estrada de Ferro Central do Piauí em Parnaíba, o homem que havia deixado a família pra viver com ela e o filho que estava esperando. Seu medo não era em vão. A mulher legítima dele, dona Francisca, poderia aparecer a qualquer momento, dobrar a esquina, armada de faca ou tesoura e naquele momento tudo podia acontecer. 
Dona Francisca, mãe das duas filhas do mecânico Sebastião, o Tião Marruás, queria era saber, achar um pé pra descontar sua raiva daquela que chamava de camarada, a rapariga do marido! Com ele teve apenas duas meninas, Isaura e Joana, a primeira, de oito e a segunda de sete anos. Vivia assuntando, remexendo nos bolsos das camisas e das calças dele pra ver se encontrava alguma pista de onde a rapariga morava. Perguntava pra os companheiros de serviço dele, mas ninguém dizia nada. Tudo feito boca de siri.
Como Tião Marruás conheceu Catarina? Ele e uns companheiros passavam o dia todo no trabalho de manutenção das linhas de trem na esplanada e as mocinhas ficavam de lá das janelas do Miranda Osório prestando atenção e intimando com eles. Uma dessas foi justo Catarina, que se impressionou com Tião Marruás, sujeito moreno, de boa altura e feição, cabelos sempre alinhados e com brilhantina, pente no bolso, cigarro Continental no bico, andando sempre de camisa aberta pra mostrar os peitos largos. Dias passados e eles
foram se dando, se encontrando na hora do almoço dos trabalhadores, pelas esquinas, nas ruas próximas pra dentro da Coroa, passeando por cima da linha de trem, ali perto da casa de doutor Mirócles ou indo até próximo da casa dela nos Campos, quase nos fundos da igreja de São Sebastião. E até que um dia Tião Marruás trouxe pra Catarina uma boneca de pano, vestida com saia e blusa de papel crepom e comprada no Mercado Central da praça Coronel Jonas. Ela gostou do presente. 
A coisa foi tomando rumo e Tião Marruás acabou um dia roubando Catarina da casa dos tios. Roubou a moça e colocou numa casa boa no Macacal, com tudo do bom e do melhor dentro. Louceira, penteadeira, banco de pote, cama, mesa de janta com cadeira de vime, cadeira de balanço e até tinha promessa de um rádio e de luz elétrica. Tinha até uma menina pra fazer companhia pra Catarina. Dona Francisca agora era de andar com uma tesoura dentro dos seios, pronta pra matar a rival. E essa rival era uma menina nova, linda, de seus dezoito anos, de nome Catarina, nascida e criada no Bom Princípio, na beira da linha de trem, assim como muitas outras mocinhas do Macacal em Parnaíba. Depois de já estar necessitando de escola veio morar na casa de uma tia, dona Suzana, nos Campos, pra estudar no Miranda Osório, ali perto da Estrada de Ferro e foi onde conheceu Tião Marruás. 
*Jornalista, escritor, membro da APAL
Edição: Mário Pires Santana

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